Há uma magia especial na forma como se fala no Norte de Portugal. Uma música própria.
Um ritmo inconfundível.
Uma identidade que não se aprende nos livros, aprende-se na vida.
Entre tantas riquezas da nossa língua, há uma que encanta, diverte e aproxima:
a troca carinhosa entre os Bês e os Vês.
No Norte, o B e o V dançam juntos.
Trocam de lugar.
Brincam nas frases.
Dão personalidade às palavras.
E fazem parte da nossa alma.
QUANDO O “B” VIRA “V”… E O “V” VIRA “B”
- “Vou ali buscar o vinho” → “Vou ali buscar o binho”
- “Fecha a janela” → “Fecha a bjanela”
- “Trouxe o bolo” → “Trouxe o volo”
- “Está muito frio” → “Está muito vrio”
- “A vida é assim” → “A bida é assim”
"- Vai pentear macacos!" torna-se frequentemente "Bai bentear macacos!" (um clássico para mandar alguém dar uma volta).
"O que é que vais fazer?" torna-se "O que é que bais fazer?".
"Vem cá, rapaz!" transforma-se em "Bem cá, rabaz!".
"Estás com o diabo no corpo" soa a "Estás com o diabo no corpo" (mantém-se, mas com o 'b' muito forte), muitas vezes dito como "Estás com o tau" (sinal de proteção ou estar possuído).
"Farinha do mesmo saco" é dita com um sotaque carregado em "Farinha do mesmo saco".
Palavras Típicas com Troca V/B
Aloquete (em vez de cadeado).
Chicla (em vez de pastilha elástica).
Berdade (em vez de verdade).
Balente (em vez de valente).
Exemplos em Contexto (Frases no Norte)
"Bais a boda com essa belocidade?" (Vais a toda a velocidade?).
"O rabaz é um balente." (O rapaz é um valente).
"Aquela baca não tem bergonha." (Aquela vaca não tem vergonha).
"Bamos ber se isso é berdade." (Vamos ver se isso é verdade).
"Bate a porta que está bento." (Vate/fecha a porta que está vento).
Não é erro.
É sotaque.
É herança.
É identidade.
MAIS DO QUE PRONÚNCIA: É HISTÓRIA
Esta forma de falar não nasceu por acaso.
Vem de séculos de evolução da língua.
De influências antigas.
De tradições orais.
De comunidades unidas.
É o povo a moldar a língua.
Não nos livros.
Na rua.
No café.
Na família.
No trabalho.
Na conversa ao fim da tarde.
A BELEZA DE FALAR COMO SE É
No Norte fala-se com o coração.
Com verdade.
Com frontalidade.
Com emoção.
E isso passa pela forma de falar.
Cada “b” trocado por “v” é um sinal de pertença.
Cada “v” trocado por “b” é um sorriso disfarçado.
É o idioma a ganhar vida.
NÃO É ERRO. É IDENTIDADE.
Durante muito tempo, alguns chamaram “erro” ou "falta de cultura "ao que é, na verdade, riqueza e cultura!
Não é erro.
É património imaterial.
É memória coletiva.
É autenticidade.
É Portugal no seu estado mais puro.
OS BÊS E OS VÊS QUE NOS UNEM
Num país pequeno, mas cheio de sotaques, o Norte lembra-nos que falar diferente é uma forma de ser igual: igual na dignidade, na cultura e no orgulho.
Os Bês e os Vês do Norte não confundem.
Encantam.
Não empobrecem a língua.
Enriquecem-na.
Porque a língua não vive só nos dicionários.
E no Norte…
vive com alma.
Fiquem bem.
Com saúde, alegria e orgulho na nossa forma de falar!
João Manuel Magalhães Rodrigues Fernandes