Não podemos ter tudo, é a realidade da vida e também da gestão pública. Uns concordarão, outros discordarão. Faz parte da democracia. Mas há decisões que marcam um território e esta é, sem dúvida, uma delas.
A partir de 2027, Viseu será o quartel-general do Rally de Portugal, uma das mais emblemáticas provas do Campeonato do Mundo de Ralis, organizada pelo Automóvel Clube de Portugal. Durante pelo menos dois anos, 2027 e 2028, a cidade beirã passará a concentrar toda a base logística do evento, tornando-se o verdadeiro centro nevrálgico da competição.
A decisão implica uma escolha estratégica: Viseu abdica da Volta a Portugal em bicicleta para apostar na chamada “prova rainha” do automobilismo nacional.
É, claramente, uma faca de dois gumes.
Por um lado, perde-se uma tradição ligada ao ciclismo, modalidade com forte enraizamento popular e histórico. Por outro, ganha-se um evento de dimensão internacional, com enorme projeção mediática e impacto económico significativo.
Os números falam por si: um investimento municipal direto anunciado na ordem das centenas de milhares de euros, acompanhado por um retorno estimado muito superior, seja na hotelaria, restauração, comércio, serviços ou promoção turística. Estamos a falar de milhares de pessoas envolvidas durante cerca de duas semanas — equipas, mecânicos, marcas, organização, comunicação social e adeptos.
Mais do que um evento desportivo, trata-se de uma oportunidade estratégica para projetar Viseu e o interior do país, tantas vezes esquecidos nas grandes decisões e nos grandes palcos. O rali não traz apenas motores e adrenalina; traz visibilidade internacional, dinamização económica e afirmação territorial.
Naturalmente, a decisão não é consensual. A oposição questiona valores e transparência, o que é legítimo em democracia. O escrutínio é saudável e necessário. Mas também é legítimo reconhecer que governar implica escolher, e escolher significa, muitas vezes, abdicar de algo para apostar noutra via.
A grande questão não é apenas o investimento. É o retorno.
É o impacto.
É a capacidade de transformar uma mudança num motor de desenvolvimento.
Se correr bem, Viseu poderá afirmar-se como palco central de um dos maiores eventos desportivos do mundo motorizado. Se houver rigor, planeamento e visão estratégica, o interior ganha, e quando o interior ganha, o país equilibra-se.
Mudanças geram sempre debate. Mas, por vezes, são precisamente essas mudanças que abrem novas estradas.
Agora, resta aguardar pelo arranque em 2027, e esperar que o som dos motores traga progresso, dinamismo e sucesso para toda a região.
João Manuel Magalhães Rodrigues Fernandes





















