É profundamente lamentável que, num momento em que o país enfrenta fenómenos climáticos extremos, com impactos severos em múltiplos territórios e comunidades, haja quem escolha explorar politicamente a tragédia para alimentar narrativas de revanchismo e ajuste de contas local.Assistimos a um exercício de pura demagogia política, protagonizado por quem, tendo ou reivindicando responsabilidade política no concelho de Nelas, opta por transformar um evento natural extremo, reconhecido como excecional à escala nacional, num palco de acusações levianas, tentando artificialmente construir culpados para aquilo que está manifestamente para além de qualquer capacidade razoável de previsão ou controlo humano.
Pergunta-se, com inteira legitimidade, irá o autor destas acusações também exigir responsabilidades civis e financeiras a todos os presidentes de câmara do país cujos parques urbanos, praias fluviais e infraestruturas ribeirinhas foram inundados pela violência das águas?
Irá apresentar queixa contra os autarcas de Viseu pelo sucedido no Parque Urbano de Santiago? Contra os responsáveis municipais de Tábua, e de tantos outros concelhos onde a fúria implacável dos rios arrastou equipamentos e causou prejuízos significativos?
Ou estaremos apenas perante um discurso seletivo, movido não pela defesa do interesse público, mas por motivações políticas menores, que instrumentalizam o sofrimento coletivo para atacar adversários locais?
Infelizmente, à tragédia climática que assola o país soma-se este tipo de comentário descabido, que revela mais sobre as intenções e a postura de quem o profere do que sobre a realidade dos factos. Em vez de solidariedade, responsabilidade institucional e união na resposta às consequências destes fenómenos extremos, opta-se pelo ruído, pela acusação fácil e pela exploração política da desgraça.
O bom senso, a seriedade e a elevação democrática fazem hoje mais falta do que nunca. E são precisamente essas qualidades que este tipo de discurso evidencia não possuir.