A moção de censura apresentada pelo Partido Socialista na Assembleia Municipal de Nelas merece um repúdio claro e inequívoco. Não porque a censura, enquanto instrumento democrático, não seja legítima, é-o e deve sê-lo sempre que existam fundamentos sérios e politicamente sustentados, mas porque, neste caso, não passa de um exercício de ressentimento travestido de moralidade.Trata-se de uma moção sem sustentação lógica, assente exclusivamente na insatisfação do PS por ter perdido peso na correlação de forças do executivo camarário, após a decisão de um dos seus vereadores de assumir outro posicionamento político. O que verdadeiramente está em causa não é qualquer alegada falha ética ou institucional, é a perda de influência.
Ao tentar transformar uma decisão política legítima num ato censurável, o PS parece esquecer episódios bem conhecidos da vida política nacional, como a chamada Geringonça, liderada por António Costa, onde entendimentos e rearranjos parlamentares foram não só aceites como celebrados. E esquece igualmente as múltiplas situações, por esse país fora, em que autarcas socialistas protagonizaram mudanças e reconfigurações políticas semelhantes,aí vistas como naturais no jogo democrático.
O que noutros concelhos merece aplauso e é sinal de maturidade política, em Nelas pretende-se agora classificar como desvio intolerável. Porquê? Porque fragiliza o PS. E é precisamente aqui que a censura se torna censurável, quando deixa de ser um instrumento de escrutínio para se transformar numa reação emocional à perda de poder.
Não se pode alcandroar um estatuto de exceção para o concelho de Nelas apenas porque a realidade política deixou de favorecer um partido. A democracia não é propriedade de ninguém, nem se molda às conveniências circunstanciais de quem vê o seu espaço diminuir.
Perante tudo isto, nada é mais censurável do que a hipocrisia disfarçada de imperativo moral. Quando a censura nasce, não da defesa de princípios, mas da frustração política, ela perde autoridade, e expõe apenas a incoerência de quem a propõe.