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terça-feira 03 2026
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As robustas e selecionadas vacas da Comporta
Uma manada com 40 animais, escolhidos entre os mais robustos que se apresentavam à venda, constituiu o trunfo da Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado para criar uma raça de vacas específica da Comporta, adaptada às péssimas condições que ali se viviam, mais semelhantes a paragens africanas do que ao paraíso à beira-mar plantado em que aquela zona se tornaria mais de um século depois.
Corria 1888, cerca de um século antes da “descoberta” do destino turístico da moda. Em vez do glamour das cabanas milionárias, do chic com o pé na areia, dos sunsets à beira-mar, a Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado teimava, sem grande sucesso, em querer retirar algum rendimento das suas insalubres terras na Comporta. Nesse ano, a administração resolveu arriscar em algo diferente: dar os primeiros passos para criar uma raça bovina específica desta região, especialmente vigorosa e saudável para resistir às péssimas condições que caracterizavam aquela propriedade.

Em vez de empreendimentos turísticos e carros topo de gama, a grande aposta da Comporta desses tempos longínquos eram vacas.
Assim, adquiriu-se, na feira de São João, em Évora, uma vacada constituída por 40 rezes, das mais robustas e novas que estavam disponíveis. Eram o ponto de partida para constituir um desejado centro de criação, que produzisse animais destinados à distribuição por outras herdades da companhia.
Embora houvesse otimismo, logo especialistas na matéria recearam pela saúde dos animais, dadas as condições “atmosféricas e bromatológicas”, o ar, os pastos e as águas de que dispunham naquela espécie de pedaço de África em território europeu, que era como a Comporta se apresentava à opinião pública daqueles tempos.

Apesar de algumas melhorias, aquela zona era ainda conhecida pelas suas “condições anti-higiénicas” que lhe davam muito má fama, pelo que havia fundados receios quanto ao sucesso deste projeto.
Elogiava-se a escolha criteriosa dos animais e o facto de virem “de pior para melhor”. Isto é: vinham das pastagens pobres e áridas do Alentejo interior, para umas que se pensava poderem ser mais ricas, no litoral, algo que seria sempre positivo.
A vacada era de uma raça alentejana com tradição noutras áreas do concelho de Alcácer do Sal, onde as condições não diferiam muito das da Comporta, pelo que existiam esperanças que também se desse bem por lá.

Serviriam sobretudo como força de trabalho nas extensas explorações agrícolas, já que tinham pouca aptidão para a engorda – compreende-se, a elegância acima de tudo! Por isso, produziriam sempre pouca quantidade de carne limpa e de qualidade inferior.
Não se tratava de uns quaisquer bovinos mansos e pacatos, mas sim semi-selvagens que, pelas suas particularidades, não eram dados a estarem em estábulo, preferindo o ar livre.
A sua rusticidade, pensava-se, dava-lhes mais possibilidades de resistir ao difícil ambiente em que iriam viver.

Mas, a Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado tinha altas expetativas. Entendia que, com “cruzamentos judiciosos” conseguiria aprimorar esta raça de forma que também pudesse ser uma fonte válida de carne.
Basicamente, queria o melhor de dois mundos e sem grandes gastos, que o tempo não estava para devaneios.
Os especialistas é que não acreditavam que tal fosse possível: nenhum boi esgotado de trabalhar no duro uma vida inteira estaria tenrinho quando chegasse em forma de bife ao prato das pessoas!
Desconheço se esse projeto deu resultado, mas sei que, cerca de 50 anos depois, em 1945, a Herdade da Comporta tinha já mais de 720 hectares de arroz plantado. Mantinha a vertente pecuária, com cavalos, ovelhas e porcos, para além de continuar a produzir bovinos, mas exclusivamente para trabalho.
Seriam as descendentes dessas vacas originais, adquiridas em Évora?
À margem

No concelho de Alcácer do Sal existiam alguns exemplos positivos de cruzamentos bem-sucedidos, entre touros zebus (indianos) e vacas bravas nacionais, mistura que terá sido a opção da Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado para fazer vingar as vacas da Comporta.
Em 1888, no matadouro de Setúbal, o que mais surgia para abate eram precisamente animais resultantes desta fusão, mas provenientes da Herdade de Palma.
A Casa Real também tinha feito semelhante experiência numa manada de Mafra, que produziu rezes para outras propriedades, nomeadamente a Herdade do Pinheiro, também no município de Alcácer do Sal.
Por essa altura, apesar de continuar a não ser a zona mais atrativa para viver, já havia quem percebesse que a Comporta possuía “uma praia de banhos” que deveria ser “a maior e a mais serena do País” e que, num futuro ainda desconhecido, deveria “tomar um desenvolvimento extraordinário”, tornando-se “não só um grande centro de produção e trabalho, mas de turismo”, pois para tal tinha “excelentes condições”.
Ainda demoraria umas décadas...e as previsões acabariam por se concretizar, com ou sem vacas…
Mas isso é outra história…
Fontes
Biblioteca Municipal de Setúbal
Gazeta Setubalense, 04.03.1888, 10.06.1888, 17.06.1888, 01.07.1888, 08.07.1888, 15.07.1888, 29.07.1888, 05.08.1888, 19.08.1888.
Arquivo Municipal de Alcácer do Sal
Jornal «O Setubalense», suplemento de 4 de Agosto de 1934.
Pedro Muralha, Monografias alentejanas, Imprensa Beleza, Lisboa, 1945
Imagens
Pedro Muralha, Monografias alentejanas, Imprensa Beleza, Lisboa, 1945
Instituto Geológico e Mineiro, Carta Geológica de Portugal, Folha explicativa da Folha 38-B Setúbal. Lisboa, 1999. Disponível em:
https://www.academia.edu/34570833/Carta_Geol%C3%B3gica_de_Portugal_na_escala_de_1_50_000_Not%C3%ADcia_Explicativa_da_folha_38_B_Set%C3%BAbal_
Arquivo Municipal de Alcácer do Sal
PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/692
PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/693
PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/692
PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/1241
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