Ontem assinalou-se o Dia Internacional da Mulher. Uma data que muitos celebram com flores, homenagens e palavras bonitas. No entanto, confesso que nunca fui um grande entusiasta destas celebrações simbólicas. Não por falta de reconhecimento, bem pelo contrário, mas porque sempre me pareceu que o verdadeiro respeito não se reserva para um dia específico no calendário.
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segunda-feira 09 2026
A MULHER NÃO PRECISA DE UM DIA — PRECISA DE IGUALDADE TODOS OS DIAS
Ontem assinalou-se o Dia Internacional da Mulher. Uma data que muitos celebram com flores, homenagens e palavras bonitas. No entanto, confesso que nunca fui um grande entusiasta destas celebrações simbólicas. Não por falta de reconhecimento, bem pelo contrário, mas porque sempre me pareceu que o verdadeiro respeito não se reserva para um dia específico no calendário.
Reflexão de Benjamim Abrantes
“A vida poderia ser simples, mas não é. Poderíamos apenas sentir, sem precisar entender. Poderíamos apenas amar, sem temer a perda. Poderíamos apenas existir, sem carregar o peso das escolhas.
Mas a vida vem com
seus labirintos, os seus altos e baixos, as suas perguntas sem resposta. E
talvez seja exatamente isso que a torne tão especial. Porque, no meio do caos,
aprendemos a valorizar a paz. No meio da incerteza, descobrimos a coragem. No
meio da complexidade, encontramos a beleza das pequenas coisas.
A simplicidade não
está na ausência de desafios, mas na maneira como escolhemos ver o mundo.
Talvez a vida nunca seja simples, mas pode ser leve. E, no fim, isso já é
suficiente.”
Homenagem a António Lobo Antunes e à Mulher
E em homenagem a todas vós MULHERES e MÃES deixamos, como reflexão, este texto de António Lobo Antunes.
Quando eu era pequeno, à noite, e já estava sentado na cama, a mãe dizia:
com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo
com Deus me
deito
com Deus me
acho
aqui vai o
Tóino
pela cama
abaixo
O meu irmão
Pedro morreu muito depressa no dia 21 de dezembro, como era costume nele sem
prevenir ninguém, mas tenho a certeza que, em qualquer ponto seu
com Deus me
deito
com Deus me
acho
aqui vai o
Pedro
pela cama
abaixo
só que, se calhar, ninguém tomou atenção a estas palavras. No dia seguinte fomos, os irmãos, dizer à mãe. Estava sentada na cadeira do costume e portou--se com a imensa dignidade com que sempre viveu. As suas palavras foram
- Tenham
misericórdia de mim.
Era muito
bonita, a mãe. Ensinou-nos a ler e ensinou-nos a dançar, talvez as duas coisas
mais importantes do mundo. E lembro-me de a ver andar de bicicleta na Praia das
Maçãs, um pouco indignado porque andar de bicicleta era uma coisa para nós, não
era uma coisa para ela.
- Tenham misericórdia de mim
que foi a única vez que a vi usar essa palavra, passado um bocado acrescentou
- Uma mãe não tem o direito de estar viva quando um filho morreu
e morreu de lhe ter morrido o filho, com uma discrição e uma elegância
exemplares. Não tinha nenhuma doença especial: apenas a obrigação de cumprir um
dever e foi juntar-se ao Pedro. Não comia quase, sentada na cadeira em que
recebeu a notícia. Às vezes dizia-lhe versos porque ela gostava muito de
poesia. Na igreja disse-lhe um dos seus sonetos preferidos, de António
Sardinha, que aprendi com o pai. Costumava contar que o pai, enquanto se
arranjava de manhã, na casa de banho, recitava poemas e ela ficava a um canto,
a ouvi-lo.
- O que é que a seduziu no pai, mãe?
- A inteligência
ela que começou a namorá-lo aos catorze anos. Isso e a voz do pai, tão
sensual:
- Nenhum dos filhos herdou a voz do pai. Talvez o António, um bocadinho.
A sensualidade e a inteligência, ela que era uma mulher muito inteligente.
Falava, por exemplo, de Bento de Jesus Caraça que tinha conhecido menina, lá na
Beira Alta, com o entusiasmo com que uma adolescente fala de um ator de cinema.
Durante os meses? em que esteve a preparar-se para se reunir ao filho às vezes
pegava--lhe na mão e os dedos tão suaves e doces. Não éramos ricos, teve muitos
filhos, tinha de tomar conta daquilo tudo, costurava, trabalha bastante em casa
e quando se arranjava, assim para jantares mais de cerimónia, ficava uma brasa
e peras. Também não era especialmente terna, mas contava-me, por exemplo, que,
era eu bebé, lhe doía a boca de me dar beijos. Entre tantas mulheres apenas ela
me declarou isso. Deve ser tão bom doer a boca de beijar. Há alturas em que me
sinto culpado pelos problemas que lhe atirei para cima: doenças (uma meningite
aos oito meses durante a qual estive em coma, tuberculose aos três anos), o meu
mau feitio
(- Assim tão
mau, mãe?)
o meu completo
desinteresse pelos estudos
(Só se
preocupa em escrever e ler)
o seu receio
de me ver acabar a vender pensos rápidos e Bordas d'Água nas esplanadas porque
a literatura não dá de comer a ninguém, esquecida que a culpa era dela dado que
nos ensinou a ler antes de entrarmos para a escola e, em mim, a doença pegou:
- Só liga a
livros e a raparigas.
Eu
perguntava-lhe
- Existe
alguma coisa para além disso, mãe?
e o facto de
não responder significava, talvez, que até certo ponto estava de acordo.
Às vezes, ao
zangar-se
- Não sorrias
porque estou a ralhar-te
e, quando eu
sorria, era-lhe difícil ralhar-me
- Sobretudo
não faças essa carinha
e eu lá mudava a carinha para o resto da descompostura. Julgo que só
compreendi bem o que sentia por mim quando estava com o cancro e ela veio
visitar-me. Não era mulher de lágrimas, mas a cara encontrava-se cheia delas,
escondidas. Agora tenho o seu retrato ali e sou eu que as escondo. Pior do que
você, mãe, visto que sou mais chorão. A Zézinha nasceu quando eu na guerra e
escreveu-me a contar: "não sei se estás vivo ou morto porque há um mês e
meio que não sei nada de ti". Estava vivo. Não assim muito vivo, mas vivo,
ao passo que quanto a si, mãe, nunca esteve tão viva como agora.
Com Deus me
deito
com Deus me
acho
aqui vai o
Tóino
pela cama
abaixo.
Tanta coisa que eu podia contar a seu respeito, e não conto, e jamais contei. Não sou capaz, tenho pudor. Enquanto a metiam debaixo da terra e não aguentei, fui-me embora. Fazia um dia de sol muito bonito. E tive a certeza de ver o Pedro ao longe. Não precisámos de falar. Quase nunca precisávamos de falar para nos entendermos. Mas a palavra mãe ia de um para o outro. E somos nós que vamos pela cama abaixo. A mãe será a última pessoa a ficar olhando para a gente. Nascemos de si, não tem o direito de se ir embora. Não concorda? Olhe que eu ponho-me a sorrir aquele sorrisinho parvo até escutar que sim.
Virgínia Costa RECORDANDO VELHOS TEMPOS
O amola-tesouras (ou amolador) era uma figura tradicional do comércio ambulante português, reconhecido tanto pelo som da sua flauta de pã (conhecida como gaita de amolador), além da "gaita", era comum ouvir o pregão: "Amolador à porta... Amola facas, tesouras e canivetes... Arranja chapéus de chuvas. Estes profissionais eram autênticos artesãos "faz-tudo" como reparações de chapéus de chuvas, de loiça partida e os furos dos tachos. O amola-tesouras representa um ofício de outrora que garantia a longevidade dos utensílios, onde os objectos eram reparados em vez de descartados.
Jeffrey Almeida · PROMESSA DE 25 ESCUTEIROS...
Ontem, os escuteiros do Agrupamento 604 - Canas de Senhorim viveram um momento profundamente marcante e simbólico: a Cerimónia da Promessa, celebrada durante a Eucaristia na Igreja Matriz de Canas de Senhorim.
Robson Costa · Entre um gole e outro...
Elas sentam-se no banco de pedra, à porta da casa que já viu mais de 70 invernos.
domingo 08 2026
A escolha de Benjamim Abrantes
Há coisas que não compreendemos, como se a vida escrevesse à pressa numa caligrafia que não deciframos. Em vez de desenhar bem as letras e de nos deixar perceber o que nos quer dizer, naquela caligrafia redondinha e perfeita do início, faz uns rabiscos ou escreve de forma a não conseguirmos ler o que está escrito. A vida devia escrever sempre num caderno de duas linhas, sem rasuras ou enigmas que não nos deixam perceber o que nos pede ou quer de nós.
Mulher
Se
eu não tivesse o dom
De
inventar uma mulher, no espaço da terra,
Não
sei se seria só alma ou só corpo,
Ou
corpo sem alma, ou alma sem corpo.
Sei
que assim,
Eu
não sou, totalmente, um corpo
Fora
da alma.
Sou
um corpo e alma.
Há
sempre um beijo metafísico de mulher.
Há
sempre o meu corpo vivo
Dentro
da minha alma viva,
Ainda
que o meu corpo e alma
Brilhem
por um beijo metafísico.
©Fernando
Neto
































