segunda-feira 02 2026

Mazagão, a cidade que atravessou o oceano

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Se, de repente, uma cidade deixa de ser relevante e, em simultâneo, precisamos de povoar outro local, porque não transferir essa cidade para a geografia onde faz falta, mesmo que seja do outro lado do mundo? Deve ter sido este o raciocínio de Sebastião José de Carvalho e Melo, pouco antes de D. José o ter tornado Marquês de Pombal. Para este senhor, como sabemos, não havia impossíveis e foi isso mesmo que se fez: transportou-se Mazagão, em Marrocos, para os confins da selva brasileira. Uma verdadeira dor de cabeça para os moradores, claro, mas também para os mandantes deste projeto megalómano.

Corria 1769. Depois de 255 anos de posse, a mais saudada e fortificada praça portuguesa no Norte de África deixa de ser sustentável. Os vizinhos são hostis, não se cansam de molestar a população e, enfim, a verdade é que as atenções do País estão agora centradas noutras paragens mais proveitosas. É assim que Sebastião José de Carvalho e Melo e o irmão, Francisco de Xavier Mendonça Furtado, Governador do Grão-Pará, ambos homens de ação, tomam a decisão de abandonar a cidade e de a refundar no Brasil.

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Com promessas de uma vida melhor, tratam de convencer os cerca de dois mil habitantes a embarcar*. Fazem as malas e chegam a Lisboa para uma necessária escala. É aí que começam os problemas, porque, quando se trata de voltar a zarpar, a maioria vai ainda mais contrariada e um número significativo encontra artimanhas para ficar.

Ironicamente, abalam de Santa Maria de Belém, para Belém do Pará. É aí que vão permanecer algum tempo, até que o novo aglomerado, a construir entre as cidades de São José de Maçapá e Vila Vistosa da Madre de Deus, esteja pronto a habitar.

Esta era a rota entre o Pará e as minas de Mato Grosso (na próxima imagem), que urgia proteger com novos povoados.

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A vila seria traçada a régua e esquadro por Domingos Sambucetti, coadjuvado na instalação dos contrariados  “inquilinos”, por Inácio de Castro de Moraes Sarmento.

Teoricamente, trata-se de um terreno fértil onde se prevê que aquelas gentes vindas de tão longe prosperem. Teoricamente…porque aquela mesma área de Santa Ana do rio Mutuacá já havia sido abandonada pelos anteriores moradores, um núcleo de índios trazidos do seu torrão natal para serem traficados, mas que ali puderam permanecer livremente e livremente abalar, pois consideraram a zona pouco saudável.

O que diriam então os de Mazagão, pouco habituados a climas tropicais? Parece que disseram o mesmo, porque a maior parte não queria rumar às suas novas casas, preferindo permanecer em Belém.

Agora, façam-se as contas ao que custou transportar toda esta gente entre três continentes e atravessando um oceano, pagar tenças, alojamento e alimentação durante os cerca de 14 anos que durou este devaneio, construir-lhes casas novas no meio de nada e ainda obrigá-los a ocupar os seus postos, em levas sucessivas, à medida que se ia arrebanhando os que tinham ficado pelo caminho.

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E, no final, ninguém ficou contente. Os transferidos criticavam as casas e o ar pestilento do lugar, diziam-se pobres, maltratados e incompreendidos. Na origem, eram militares, não se viam na pele de colonos obrigados a trabalhar a terra, algo que nunca tinham feito e entendiam ser o dever de escravos que não possuíam. Com esta postura e falta de vontade, não eram de grande préstimo à coroa, nem serviam o propósito de tão grande tarefa que foi a sua viagem.

Não admira que inundassem as autoridades com requerimentos e diferentes argumentos para regressar a Belém do Pará, Lisboa ou simplesmente sair da Mazagão brasileira (na imagem), em busca de terras mais agradáveis à sua natureza. Alguns pediam mesmo nova transferência, para território igualmente inóspito, mas com melhor reputação, como o Algarve.

Finalmente, em 1783, uma epidemia foi o argumento ideal para se reforçarem os pedidos. O Marquês de Pombal tinha recentemente sido arredado do poder e a rainha D. Maria I, que, entretanto, tinha substituído o seu pai, mostrando-se tão piedosa como o cognome pelo qual ficaria conhecida, não teve como recusar tão insistentes suplicas. Foi a machadada final na efémera história desta povoação, que se viu praticamente abandonada, só registando nova vaga de gente muitos anos depois.

E foi assim que Mazagão foi, ao mesmo tempo, a última praça militar portuguesa no Norte de África e a derradeira vila fundada na Amazónia no período pombalino.

 

À margem

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Na sua família, não era só Sebastião José de Carvalho e Melo quem detinha poder, enquanto valido do rei D. José e autor das grandes decisões tomadas no seu reinado. Os seus dois irmãos, Paulo António de Carvalho e Mendonça e Francisco Xavier de Mendonça Furtado ocuparam igualmente cargos de grande relevância. O primeiro tornou-se inquisidor-geral e cardeal-patriarca de Lisboa. A ascensão ao cardinalato, aliás, dá-se no ano do abandono de Mazagão, que coincide com a morte do outro irmão, que a havia decidido, já que fora governador-geral do Grão-Pará e Maranhão, e, depois, secretário de Estado da Marinha e do Ultramar.

Nada mau para os filhos de Manuel de Carvalho e Ataíde, também ele ambicioso e com a mania das grandezas, ao ponto de, na sua obra Theatro Genealogico, ter falsificado dados de famílias retratadas, nomeadamente da sua.

Constituíam o trio perfeito de poder: o político, o religioso e o militar, aqui retratados por Joana Inácia Rebelo.

Também conhecida como Joana do Salitre (porque residia na rua do Salitre, em Lisboa), foi a mais destacada pintora do seu tempo e, como os negócios de família são um verdadeira instituição nacional, diga-se que era irmã de José António Monteiro de Carvalho, também ele ligado ao Brasil, onde desenvolveu importantes trabalhos de cartografia e, para fechar o círculo, um dos homens de mão de Sebastião José de Carvalho e Melo no épico trabalho de reconstruir Lisboa após o sismo de 1755, já que fez o levantamento das ruas, praças e edifícios públicos e foi arquiteto de obras do Conselho da Fazenda.

Ficou conhecido como “o Bota Abaixo”.

Mas isso é outra história…

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*Os nomes destas pessoas estão preservados em letra desenhada, no registo de passageiros dos navios que os transportaram. Bem identificadas, com indicação de nome e idade de cada elemento, as famílias eram numeradas, para que não faltasse nenhuma.

 

 

Fontes

Renata Araujo,  As Cidades Da Amazónia No Século XVIII - Belém, Macapá e Mazagão, Dissertação de mestrado em História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1998. Disponível aqui:

Renata Araujo - As Cidades Da Amazónia No Século XVIII - Belém, Macapá e Mazagão | PDF | Portugal | Colonialismo

 

Navios Antigos - Marinha Portuguesa - Archeevo

 

António José Maia de Mascarenhas, O Terramoto de 1755, Os Engenheiros Militares e a Reconstrução de Lisboa, in Ingenium, set-out 2005. Disponível aqui: b4b615105e41e2adc6b44d6a339eb739_pdf_210962208966b9ddb98a10a.pdf

 

O recheio desaparecido do palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras1 José Meco (Escola Superior de Artes Decorativas / Fundação Ricardo Espírito Santo Silva). Aqui: https://acasasenhorial.org/acs/index.php/pt/artigos?task=download&file=pdf&id=42

Joana Inácia Rebelo – Wikipédia, a enciclopédia livre

Manuel de Carvalho e Ataíde – Wikipédia, a enciclopédia livre

CARVALHO DE ATAÍDE, Manuel de. THEATRO GENEALOGICO QVE CONTEM AS ARVORES DE COSTADOS - Livraria Castro e Silva

 

Imagens

Mazagão : [planta da cidade e fortaleza], dezenhada por Ignacio Antonio da Silva, em 1802. – 1802. Disponível na Biblioteca Nacional em linha: www.purl.pt

Gravura de Mazagão. Estudo da táctica à Vauban durante o cerco de 1769, Casa de Ínsua, obtida em  Mazagão | Histórias de Portugal em Marrocos

O Município de Mazagão: origem, economia e turismo | Portal de Notícias | Prefeitura de Amapá

Sebastião José e os seus irmãos, o Cardeal Inquisidor e o Governador do Grão-Pará. (Pintura de Joana do Salitre, na sala da Concórdia do Palácio Marquês de Pombal, Oeiras)

Configuração da chapada das minas do Mato Grosso - Minas do Mato Grosso – Wikipédia, a enciclopédia livre

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