terça-feira 03 2026

As escolhas do Benjamim Abrantes

 


O Pintor de Almas ( trecho )

Era como se a alma humana não fosse apenas um afresco inacabado, mas um mural constantemente reescrito pelo tempo, onde cada pincelada não acrescenta apenas cor, acrescenta fissura. Cada gesto vivido deixa um traço, cada dor deposita uma sombra, cada júbilo imprime um brilho breve demais para ser retido. O verniz do tempo, longe de proteger, racha. E é nessas rachaduras que a verdade, às vezes, respira.
Ele, o pintor, não empunhava pincéis. Sua arte era mais arriscada. Não misturava cores sobre uma paleta, misturava memórias, culpas, desejos e silêncios. Mergulhava os dedos na lama das consciências, não para sujá-las, mas para compreender a textura do que nelas há de mais humano. Buscava não a aparência, mas o que antecede a aparência, não o rosto, mas o abismo por trás do olhar. Tentava extrair da matéria bruta da experiência uma essência que não fosse apenas a sobreposição de máscaras sociais, morais e afetivas.
Sentado diante da mesa abarrotada de papéis, David inclinava-se sobre o manuscrito com a gravidade de um confessor que teme ouvir a própria culpa na voz do penitente. Seus olhos, escuros e febris, percorriam as palavras como quem tateia um labirinto. “Como descrever uma alma?”, murmurava, pressionando as têmporas como se quisesse conter o tumulto interior. “Como transpor para o papel o fluxo errante da consciência, a angústia que pulsa na obscuridade do pensamento, a tensão das contradições que corroem o homem desde dentro?”
A tinta negra, espessa como a noite sem lua, secava lentamente sobre a página, formando caracteres que mais pareciam incisões. Não eram frases, eram feridas. Já não distinguia se escrevia um romance ou se realizava uma autópsia da própria psique, expondo-a em fragmentos a um público imaginário que talvez jamais suportasse o que ali se revelava. Havia um risco incontornável na escrita, quanto mais se aprofundava na alma alheia, mais se diluía nos próprios abismos.
Desde que iniciara aquele livro, um estudo ousado sobre o desejo, o orgulho, a culpa e a possibilidade remota de redenção, sentia-se à beira de um precipício ontológico. Não sabia se observava o vazio ou se era por ele observado. A sensação era vertiginosa, como se a escrita tivesse se tornado um espelho que não apenas refletia, mas interrogava.
O verdadeiro dilema, reconhecia, era a multiplicidade do homem. Não existe um eu estável, mas uma constelação de vozes em conflito, um coro dissonante que se alterna entre justificativa e acusação. Cada decisão é precedida por um tribunal interior. Cada gesto carrega o peso de uma disputa silenciosa. O escritor desejava capturar esse instante fugaz, o momento exato em que o homem trai a si mesmo, não por maldade explícita, mas por uma quase imperceptível inclinação da vontade.
Como registrar o segundo em que a consciência escolhe? Como narrar o ponto microscópico em que o destino se desenha sem alarde?
Um arrepio percorreu-lhe a espinha ao perceber que não escrevia apenas sobre um personagem. Escrevia sobre sua própria fragmentação. O pintor de almas não era um observador neutro, era parte da tela. Cada palavra traçada era também uma revelação involuntária.
E então surgiu o pensamento mais inquietante, aquele que não ousava formular em voz alta:
o que aconteceria se, ao concluir a obra, olhasse para o retrato final e já não reconhecesse o rosto que ali estivesse?
Porque pintar almas é, no fundo, aceitar o risco de perder a própria forma.
Oliver Harden

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