quarta-feira 11 2026

As escolhas de Benjamim Abrantes

 


“.. Às vezes fecho os olhos e deixo a memória me levar de volta para aquele tempo em que tudo parecia maior do que era, e a vida tinha o cheiro doce da simplicidade. Recordo-me da rua onde cresci, onde o sol parecia nascer apenas para iluminar nossas brincadeiras, e a tarde era sempre curta demais para caber em tantas risadas.

Havia um mundo inteiro nos pequenos detalhes: o barulho da bicicleta rangendo pela estrada de terra, o vento bagunçando os cabelos, o gosto da fruta colhida direto do pé, como se fosse um segredo só meu e da natureza. O tempo tinha outro ritmo, mais lento, mais generoso… não havia pressa, só a urgência de ser feliz sem nem perceber que aquilo já era felicidade.
Lembro das noites tranquilas, quando o céu parecia mais estrelado, e eu acreditava que as constelações guardavam respostas para sonhos que eu ainda nem sabia formular. Lembro do cheiro do café passado na cozinha, do pão quentinho vindo da padaria, do colo que sempre cabia mais um abraço. Cada detalhe, tão simples, hoje brilha como joia rara na lembrança.
A infância foi feita de descobertas que hoje parecem pequenas, mas que na época eram mundos inteiros: a primeira vez que aprendi a escrever meu nome, a sensação de correr descalço na grama molhada, o coração acelerado ao soltar uma pipa e vê-la subir, livre, no céu. Havia uma poesia escondida em cada instante, e talvez eu não soubesse, mas estava colecionando eternidades.
O tempo passou, e aquela criança que fui ainda vive em mim, escondida nos cantos mais sensíveis do meu coração. Às vezes ela me chama, me pede para desacelerar, para voltar a enxergar beleza onde os olhos de adulto já se acostumaram a ver rotina. E eu escuto. Porque dentro de mim, ainda existem os mesmos sonhos, o mesmo brilho no olhar diante de uma tarde de sol, a mesma fé inocente de que o mundo pode ser leve.
Hoje, ao relembrar tudo isso, sinto um aperto bom no peito. É saudade, mas também é gratidão. Saudade das tardes despreocupadas, das amizades feitas sem medo, das histórias inventadas com a imaginação fértil de quem acreditava que tudo era possível. Gratidão por ter vivido dias tão puros, tão inteiros, que ainda hoje aquecem minha alma.
A infância foi o lugar onde aprendi o que significa ser feliz de verdade. E, talvez, crescer não seja deixar de ser criança… talvez seja apenas aprender a reencontrá-la dentro de nós, sempre que a vida parecer dura demais.
E quando fecho os olhos, eu ainda posso ouvir: a risada solta, o grito da mãe chamando para jantar, o coração leve de quem não sabia nada sobre o mundo, mas já sabia tudo sobre o essencial..”
Autor Desconhecido...

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