sexta-feira 20 2026

ENTRE A JUSTIÇA E O RUÍDO: NEM RACISMO, NEM LINCHAMENTO

 


Num tempo em que a velocidade da indignação ultrapassa a velocidade dos factos, importa reafirmar uma posição clara e equilibrada: o racismo é condenável sem qualquer hesitação, mas a justiça não pode ser substituída por julgamentos precipitados.

O recente caso envolvendo Gianluca Prestianni e Vinícius Júnior trouxe novamente à tona um debate sensível e necessário. Porém, antes de se erguerem tribunais nas redes sociais e se escreverem sentenças em programas televisivos, há perguntas fundamentais que exigem resposta:
O que foi realmente dito?
Em que contexto?
Existem provas objetivas — áudio, vídeo, relatório oficial?
Houve intenção discriminatória clara?
Essas respostas pertencem às entidades competentes, aos relatórios oficiais, aos órgãos disciplinares e, no plano europeu, à UEFA — não ao tribunal da opinião pública.
Uma acusação de racismo é gravíssima.
Mas também é gravíssimo rotular alguém injustamente.
A prudência não é fraqueza. É maturidade.
Quem já viveu o futebol por dentro sabe que o calor do jogo não é um salão de chá. Há provocações, há palavras duras, há excessos verbais que não dignificam o espetáculo — mas que infelizmente fazem parte da tensão competitiva. Nada disso deve ser normalizado. Contudo, há uma linha vermelha inegociável: a discriminação racial. Se essa linha for ultrapassada, as consequências devem ser firmes e exemplares.
A questão é simples e séria:
Essa linha foi efetivamente cruzada?
Ou estamos perante ruído, amplificação mediática e julgamentos apressados?
Só uma investigação rigorosa pode responder.
Entretanto, o espetáculo desportivo parece cada vez mais refém da polémica permanente. Debates de horas sobre suspeitas. Comentários inflamados. Narrativas construídas antes dos factos apurados. E o futebol — o jogo, a tática, o talento — fica para segundo plano.
Perde-se a análise, perdem-se os grandes lances, perdem-se os golos geniais. Perde-se aquilo que verdadeiramente apaixona o adepto.
O próprio Vinícius Júnior é exemplo de excelência futebolística e deve ser defendido sempre que for vítima de discriminação. Mas deve, acima de tudo, ser celebrado pelo seu talento extraordinário dentro das quatro linhas.
É possível — e necessário — afirmar ao mesmo tempo:
Condeno totalmente o racismo.
Recuso julgamentos sem provas claras.
Exijo responsabilidade no discurso público.
Defendo que o foco regresse ao futebol.
O desporto deve ser competição, emoção, arte e respeito.
Não um palco de linchamentos mediáticos nem uma arena de moralismos seletivos.
Que haja verdade.
Que haja justiça.
Que haja serenidade.
E que o futebol volte a ser falado pelo que tem de mais nobre: o espetáculo dentro de campo.
João Manuel

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