Cinquenta anos volvidos, há verdades que não se podem varrer para debaixo do tapete da conveniência política ou da amnésia coletiva: se não fossem as Forças Armadas — se não fosse o Grupo dos Nove — Portugal poderia ter trocado uma ditadura por outra.
E isto não é exagero histórico; é a mais crua realidade.
Homens como Ramalho Eanes, Jaime Neves e tantos outros tiveram, naquele momento decisivo, a lucidez e a coragem de impedir que o país caísse nas mãos de um autoritarismo de sinal contrário — mas autoritarismo na mesma. A História tem destas ironias: às vezes é preciso travar a “libertação” para salvar a própria Liberdade.
O 25 de Novembro não apagou o 25 de Abril.
Protegeu-o.
Blindou-o.
Impediu que fosse desviado para um caminho de exclusão, de pensamento único, de controle ideológico.
Foi este dia — muitas vezes silenciosamente escondido, omitido ou até deturpado — que garantiu que democracia significasse pluralismo, dissenso, participação e respeito pela vontade de todos, e não apenas de alguns iluminados.
Sem este dia, não teríamos o regime aberto, competitivo, representativo e constitucional que hoje, com todos os seus defeitos, ainda é o nosso maior património coletivo.
E aqui chegamos a um ponto essencial: recordar o 25 de Novembro é defender a democracia, não reabrir trincheiras partidárias. É uma homenagem a um país que, num momento crítico, soube escolher o caminho da responsabilidade em vez do aventureirismo político; do diálogo em vez da imposição.
MEIO SÉCULO DEPOIS, OUTRAS AMEAÇAS, OS MESMOS RISCOS
Hoje não há tanques nas ruas.
Há radicalismos digitais, há populismos fáceis, há a erosão subtil da confiança pública.
A desigualdade cresce, a habitação afasta as famílias, os jovens vivem num limbo que não deveria ser normal. E, perante isto, surgem de novo vozes que prometem atalhos salvadores — atalhos que, como sabemos, nunca levam à liberdade, mas sim à sua erosão.
É aqui que entra a lição maior de Novembro:
A democracia não se sustenta em gritos — sustenta-se em responsabilidade.
Não se constrói com espetáculo — constrói-se com políticas públicas justas.
Não vive de messias — vive de instituições fortes.
Ser social-democrata hoje, mais do que nunca, significa defender esse equilíbrio que o 25 de Novembro solidificou:
a transformação social sempre acompanhada pela responsabilidade democrática;
a justiça equilibrada pela liberdade;
a mudança fundada no respeito pelo pluralismo.
O MELHOR TRIBUTO AO 25 DE NOVEMBRO?
REFORÇAR A DEMOCRACIA, TODOS OS DIAS.**
Porque a democracia não é um troféu do passado: é uma tarefa diária.
Exige vigilância, exige decência, exige memória — e exige que saibamos reconhecer aqueles que, num momento crítico da nossa história, impediram que o país se perdesse.
O 25 de Novembro não pertence a um partido.
Não pertence a uma facção.
Pertence a Portugal.
Recordá-lo é garantir que nunca mais tenhamos de escolher entre duas ditaduras.
Celebrá-lo é afirmar, de novo e sempre, que a Liberdade só existe quando é para todos.
João Manuel Magalhães Rodrigues Fernandes

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