segunda-feira 09 2026

Robson Costa · Entre um gole e outro...


 Elas sentam-se no banco de pedra, à porta da casa que já viu mais de 70 invernos.

Seguram a chávena de café com mãos marcadas pelo tempo… e, sem saber, seguram também a História de Portugal.
Entre um gole e outro, falam de quando não havia telemóvel, mas havia vizinhos.
De quando o pão era amassado em casa, o vinho vinha da própria vinha e a vida era dura, mas tinha nome, tinha rosto e tinha comunidade.
Nas aldeias portuguesas, cada pedra tem memória.
Cada vinhedo guarda segredos de colheitas fartas e anos de seca.
Cada serra ecoa histórias de partidas, saudades e regressos.
Elas contam sobre os filhos que emigraram para França, Suíça, Luxemburgo…
Sobre as cartas escritas à mão.
Sobre as romarias, os bailes no largo, as procissões que paravam a aldeia inteira.
Sobre o tempo em que Portugal era pequeno no mapa, mas gigante na coragem.
E hoje?
Hoje o mundo corre depressa demais.
As aldeias ficam em silêncio.
As portas fecham.
Os bancos de pedra ficam vazios.
O que será do futuro de Portugal quando estas vozes se calarem?
Quem contará as histórias que não estão nos livros?
Quem ensinará que riqueza não é só dinheiro, é tradição, é honra, é palavra dada?
Portugal não vive apenas nas grandes cidades.
Vive nos recantos esquecidos.
Nas casas de pedra.
Nas vinhas ao pôr do sol.
No cheiro a terra molhada.
No som distante do sino da igreja.
As aldeias guardam nos seus baús aquilo que o novo mundo não mostra nas redes sociais:
Resiliência.
Identidade.
Raiz.
Se perdermos isso, perdemos mais do que memória.
Perdemos alma.
Talvez o futuro de Portugal dependa de algo simples:
Ouvir mais.
Valorizar mais.
Voltar mais vezes à aldeia.
Sentar no banco de pedra.
Tomar um café.
E deixar que elas contem.
Porque quando essa geração partir…
Não será apenas o fim de uma vida.
Será o fim de um capítulo inteiro da nossa história.
E a pergunta que fica é:
Vamos deixar que ele seja esquecido, ou vamos transformá-lo em legado?

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