E em homenagem a todas vós MULHERES e MÃES deixamos, como reflexão, este texto de António Lobo Antunes.
Quando eu era pequeno, à noite, e já estava sentado na cama, a mãe dizia:
com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo
com Deus me
deito
com Deus me
acho
aqui vai o
Tóino
pela cama
abaixo
O meu irmão
Pedro morreu muito depressa no dia 21 de dezembro, como era costume nele sem
prevenir ninguém, mas tenho a certeza que, em qualquer ponto seu
com Deus me
deito
com Deus me
acho
aqui vai o
Pedro
pela cama
abaixo
só que, se calhar, ninguém tomou atenção a estas palavras. No dia seguinte fomos, os irmãos, dizer à mãe. Estava sentada na cadeira do costume e portou--se com a imensa dignidade com que sempre viveu. As suas palavras foram
- Tenham
misericórdia de mim.
Era muito
bonita, a mãe. Ensinou-nos a ler e ensinou-nos a dançar, talvez as duas coisas
mais importantes do mundo. E lembro-me de a ver andar de bicicleta na Praia das
Maçãs, um pouco indignado porque andar de bicicleta era uma coisa para nós, não
era uma coisa para ela.
- Tenham misericórdia de mim
que foi a única vez que a vi usar essa palavra, passado um bocado acrescentou
- Uma mãe não tem o direito de estar viva quando um filho morreu
e morreu de lhe ter morrido o filho, com uma discrição e uma elegância
exemplares. Não tinha nenhuma doença especial: apenas a obrigação de cumprir um
dever e foi juntar-se ao Pedro. Não comia quase, sentada na cadeira em que
recebeu a notícia. Às vezes dizia-lhe versos porque ela gostava muito de
poesia. Na igreja disse-lhe um dos seus sonetos preferidos, de António
Sardinha, que aprendi com o pai. Costumava contar que o pai, enquanto se
arranjava de manhã, na casa de banho, recitava poemas e ela ficava a um canto,
a ouvi-lo.
- O que é que a seduziu no pai, mãe?
- A inteligência
ela que começou a namorá-lo aos catorze anos. Isso e a voz do pai, tão
sensual:
- Nenhum dos filhos herdou a voz do pai. Talvez o António, um bocadinho.
A sensualidade e a inteligência, ela que era uma mulher muito inteligente.
Falava, por exemplo, de Bento de Jesus Caraça que tinha conhecido menina, lá na
Beira Alta, com o entusiasmo com que uma adolescente fala de um ator de cinema.
Durante os meses? em que esteve a preparar-se para se reunir ao filho às vezes
pegava--lhe na mão e os dedos tão suaves e doces. Não éramos ricos, teve muitos
filhos, tinha de tomar conta daquilo tudo, costurava, trabalha bastante em casa
e quando se arranjava, assim para jantares mais de cerimónia, ficava uma brasa
e peras. Também não era especialmente terna, mas contava-me, por exemplo, que,
era eu bebé, lhe doía a boca de me dar beijos. Entre tantas mulheres apenas ela
me declarou isso. Deve ser tão bom doer a boca de beijar. Há alturas em que me
sinto culpado pelos problemas que lhe atirei para cima: doenças (uma meningite
aos oito meses durante a qual estive em coma, tuberculose aos três anos), o meu
mau feitio
(- Assim tão
mau, mãe?)
o meu completo
desinteresse pelos estudos
(Só se
preocupa em escrever e ler)
o seu receio
de me ver acabar a vender pensos rápidos e Bordas d'Água nas esplanadas porque
a literatura não dá de comer a ninguém, esquecida que a culpa era dela dado que
nos ensinou a ler antes de entrarmos para a escola e, em mim, a doença pegou:
- Só liga a
livros e a raparigas.
Eu
perguntava-lhe
- Existe
alguma coisa para além disso, mãe?
e o facto de
não responder significava, talvez, que até certo ponto estava de acordo.
Às vezes, ao
zangar-se
- Não sorrias
porque estou a ralhar-te
e, quando eu
sorria, era-lhe difícil ralhar-me
- Sobretudo
não faças essa carinha
e eu lá mudava a carinha para o resto da descompostura. Julgo que só
compreendi bem o que sentia por mim quando estava com o cancro e ela veio
visitar-me. Não era mulher de lágrimas, mas a cara encontrava-se cheia delas,
escondidas. Agora tenho o seu retrato ali e sou eu que as escondo. Pior do que
você, mãe, visto que sou mais chorão. A Zézinha nasceu quando eu na guerra e
escreveu-me a contar: "não sei se estás vivo ou morto porque há um mês e
meio que não sei nada de ti". Estava vivo. Não assim muito vivo, mas vivo,
ao passo que quanto a si, mãe, nunca esteve tão viva como agora.
Com Deus me
deito
com Deus me
acho
aqui vai o
Tóino
pela cama
abaixo.
Tanta coisa que eu podia contar a seu respeito, e não conto, e jamais contei. Não sou capaz, tenho pudor. Enquanto a metiam debaixo da terra e não aguentei, fui-me embora. Fazia um dia de sol muito bonito. E tive a certeza de ver o Pedro ao longe. Não precisámos de falar. Quase nunca precisávamos de falar para nos entendermos. Mas a palavra mãe ia de um para o outro. E somos nós que vamos pela cama abaixo. A mãe será a última pessoa a ficar olhando para a gente. Nascemos de si, não tem o direito de se ir embora. Não concorda? Olhe que eu ponho-me a sorrir aquele sorrisinho parvo até escutar que sim.
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