quarta-feira 11 2026

A imprevisibilidade da guerra

 


A Assembleia de Peritos do Irão (colégio eleitoral constituído por clérigos) nomeou Mojtaba Khamenei para substituir o seu pai, o ayatollah Ali Khamenei, como novo Líder Supremo do país. Donald Trump considerava o nome de Mojtaba Khamenei "inaceitável", por ser de uma linha dura e conservadora, que garantiria a continuidade do regime e não iria ceder à pressão dos atacantes. A posição do presidente dos EUA, como sabemos, não tem nada a ver com o fim do regime totalitário vigente e a transição para a democracia, na minha opinião, mas com a escolha de um líder que ceda aos seus interesses.

Para contextualizar, parece-me pertinente compreender a realidade deste país do Médio Oriente. No Irão tem vigorado um regime autocrático e repressivo, desde a revolução islâmica de 1979, é uma ditadura que se legitima como autoridade democrática, dado que tem um parlamento, um presidente (chefe do governo), mas acima destes órgãos um líder religioso (o ayatollah), a governação baseia-se no direito canónico, a Sharia, que é o sistema de lei islâmica baseado no Alcorão e que orienta todos os aspetos da vida muçulmana, incluindo religião, política e o comportamento pessoal. Não há separação entre religião e direito, como em muitas outras sociedades islâmicas, com a jurisprudência a interpretar as fontes religiosas para a prática diária.

As execuções e a clara violação dos direitos humanos é, por isso, exercida com a justificação de ataques à religião. Acresce, ainda, que neste país há um mosaico de povos, com uma maioria persa e diversas minorias significativas, destacando-se os azeris, curdos, luros, árabes, balúchis e turcomanos. Apesar da maioria ser muçulmana xiita, a diversidade étnica inclui minorias sunitas e religiões como o zoroastrismo (criada pelo profeta Zaratustra) e o cristianismo. É uma realidade civilizacional muito complexa e muito diferente da civilização ocidental.

Outro aspeto que merece a nossa reflexão, é o objetivo deste ataque ao Irão, uma clara transgressão dos princípios da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional, por parte dos Estados e do seu aliado Israel. Segundo Trump, o facto daquele país constituir uma ameaça ao mundo com o seu programa de produção de armas nucleares, que a Casa Branca tinha afirmado ter destruído há cerca de um ano, e a pretensão de eliminar esse regime ditatorial. Israel, com a sua atual política de imperialismo, parece querer afirmar-se como potência na região do Médio Oriente. Temos vistso que a guerra tem vindo a alastrar-se para outros pontos da região, vários estados do Golfo Pérsico intersetaram mísseis e drones enviados por Teerão. No Líbano continuam a ser alvo de intensos bombardeamentos as infraestruturas do Hezbollah e o Presidente norte-americano já afirmou que não haverá acordo “sem rendição incondicional” do Irão”.

A ONU alerta para uma crise humanitária de grandes dimensões, pois os bombardeamentos não têm parado. Há mais de mil mortos e milhares de deslocados no Irão e no Líbano. Há um perigo iminente de recrudescimento de atentados terroristas no ocidente e preocupante, também, é o impacto que este conflito está a provocar na economia mundial, nomeadamente a subida dos combustíveis e a indefinição do seu desfecho.

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