Quando tudo falta, a dignidade permanece
Apesar de tudo o que as pessoas estão a viver, e que é, na verdade, um drama autêntico, há hoje em Leiria um exemplo que nos deve encher de orgulho.
Falamos de cidadãos que perderam quase tudo.
Casas. Bens. Memórias. Segurança.
Vidas inteiras construídas ao longo de décadas, destruídas em poucos dias.
Falamos de famílias que ficaram sem água, sem luz, sem comunicações.
De pessoas que ainda hoje vivem na incerteza, na angústia, no medo.
E, mesmo assim, nesta manhã, muitos dos membros das mesas de voto, também eles afetados pela calamidade, levantaram-se, vestiram a dignidade e foram exercer a democracia.
Foram servir o país.
Foram dar um exemplo.
É impossível não sentir respeito.
É verdade: muitos cidadãos estão desiludidos com a classe política.
E, na sua grande maioria, têm razões para isso.
Esta sucessão de tempestades mostrou fragilidades graves.
Mostrou falta de prevenção.
Falta de resposta.
Falta de apoio rápido e eficaz.
Mostrou que, em momentos críticos, muitos ficaram entregues a si próprios.
Sem ajuda.
Sem informação.
Sem conforto.
E isso dói.
Isso revolta.
Isso deixa marcas.
Mas, mesmo no meio da dor, o povo não baixou os braços.
Hoje, milhares de portugueses vão votar.
Com dificuldades.
Com cansaço.
Com feridas ainda abertas.
Mas vão.
Porque sabem que a democracia é frágil.
E que precisa de ser cuidada todos os dias.
Porque sabem que, apesar de imperfeita, continua a ser o melhor regime que conhecemos.
Já imaginaram esta calamidade numa ditadura?
Num regime autoritário?
Sem voz.
Sem escolha.
Sem liberdade?
Nem vale a pena imaginar.
Hoje, votamos também por isso.
Pela liberdade.
Pela dignidade.
Pelo direito de decidir.
Mesmo que nenhum candidato entusiasme plenamente.
Mesmo que exista descrença.
Mesmo que haja dúvidas.
Hoje não votamos apenas em pessoas.
Votamos no direito de escolher.
Votamos no futuro.
Votamos na esperança.
E talvez não seja coincidência que o sol tenha aparecido logo pela manhã, como quem diz:
“Continuem. Não desistam.”
Que este dia seja lembrado como o dia em que, no meio da tempestade, o povo escolheu a democracia.
Viva a democracia.
Viva o povo português.
Viva quem não desiste.
Hoje, juntos, vamos vencer, sem margem para dúvidas.
João Manuel Magalhães Rodrigues Fernandes

Sem comentários:
Enviar um comentário