terça-feira 17 2026

OS BÊS E OS VÊS DO NORTE: A MÚSICA DAS PALAVRAS QUE NOS FAZ SORRIR

 


Há uma magia especial na forma como se fala no Norte de Portugal.

Uma música própria.
Um ritmo inconfundível.
Uma identidade que não se aprende nos livros, aprende-se na vida.
Entre tantas riquezas da nossa língua, há uma que encanta, diverte e aproxima:
a troca carinhosa entre os Bês e os Vês.
No Norte, o B e o V dançam juntos.
Trocam de lugar.
Brincam nas frases.
Dão personalidade às palavras.
E fazem parte da nossa alma.
QUANDO O “B” VIRA “V”… E O “V” VIRA “B”
Quem nunca ouviu:
- “Vou ali buscar o vinho” → “Vou ali buscar o binho”
- “Fecha a janela” → “Fecha a bjanela”
- “Trouxe o bolo” → “Trouxe o volo”
- “Está muito frio” → “Está muito vrio”
- “A vida é assim” → “A bida é assim”
"- Vai pentear macacos!" torna-se frequentemente "Bai bentear macacos!" (um clássico para mandar alguém dar uma volta).
"O que é que vais fazer?" torna-se "O que é que bais fazer?".
"Vem cá, rapaz!" transforma-se em "Bem cá, rabaz!".
"Estás com o diabo no corpo" soa a "Estás com o diabo no corpo" (mantém-se, mas com o 'b' muito forte), muitas vezes dito como "Estás com o tau" (sinal de proteção ou estar possuído).
"Farinha do mesmo saco" é dita com um sotaque carregado em "Farinha do mesmo saco".
Palavras Típicas com Troca V/B
Aloquete (em vez de cadeado).
Chicla (em vez de pastilha elástica).
Berdade (em vez de verdade).
Bida (em vez de vida).
Balente (em vez de valente).
Bento (em vez de vento).
Exemplos em Contexto (Frases no Norte)
"Bais a boda com essa belocidade?" (Vais a toda a velocidade?).
"O rabaz é um balente." (O rapaz é um valente).
"Aquela baca não tem bergonha." (Aquela vaca não tem vergonha).
"Bamos ber se isso é berdade." (Vamos ver se isso é verdade).
"Bate a porta que está bento." (Vate/fecha a porta que está vento).
Não é erro.
É sotaque.
É herança.
É identidade.
É cultura viva.
MAIS DO QUE PRONÚNCIA: É HISTÓRIA
Esta forma de falar não nasceu por acaso.
Vem de séculos de evolução da língua.
De influências antigas.
De tradições orais.
De comunidades unidas.
É o povo a moldar a língua.
Não nos livros.
Na rua.
No café.
Na família.
No trabalho.
Na conversa ao fim da tarde.
A BELEZA DE FALAR COMO SE É
No Norte fala-se com o coração.
Com verdade.
Com frontalidade.
Com emoção.
E isso passa pela forma de falar.
Cada “b” trocado por “v” é um sinal de pertença.
Cada “v” trocado por “b” é um sorriso disfarçado.
É o idioma a ganhar vida.
NÃO É ERRO. É IDENTIDADE.
Durante muito tempo, alguns chamaram “erro” ou "falta de cultura "ao que é, na verdade, riqueza e cultura!
Mas não.
Não é erro.
É património imaterial.
É memória coletiva.
É autenticidade.
É Portugal no seu estado mais puro.
OS BÊS E OS VÊS QUE NOS UNEM
Num país pequeno, mas cheio de sotaques, o Norte lembra-nos que falar diferente é uma forma de ser igual: igual na dignidade, na cultura e no orgulho.
Os Bês e os Vês do Norte não confundem.
Encantam.
Não dividem.
Aproximam.
Não empobrecem a língua.
Enriquecem-na.
Porque a língua não vive só nos dicionários.
Vive nas pessoas.
E no Norte…
vive com alma.
Fiquem bem.
Com saúde, alegria e orgulho na nossa forma de falar!
João Manuel Magalhães Rodrigues Fernandes

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