A Sofia entrou na última corrida autárquica ao Município de Nelas como quem entra num baile de gala antes de saber se foi convidada. Convicta da vitória ,não por excesso de dados, mas por abundância de autoconfiança ,apostou cedo numa campanha que se quis diferenciadora, elevada, quase etérea. Tão etérea, aliás, que os projetos concretos nunca chegaram a aterrar. Houve floreados, houve pose, houve discurso ensaiado para plateias imaginárias. Faltou apenas o essencial: um plano sério para o concelho.
Quando os votos foram finalmente contados, a realidade revelou-se menos impressionável do que o espelho. A derrota foi clara, mas o destino, esse guionista irónico, ofereceu-lhe um prémio de consolação, Manuel Marques era eleito por milagre estatístico e Joaquim Amaral ficava sem maioria absoluta. Não por mérito do PS, nem por genialidade estratégica da candidata, mas por pura ironia do acaso, essa força política que não consta nos boletins de voto.
Sofia viu ali uma janela de oportunidade. Não para construir, mas para bloquear. Não para propor, mas para condicionar. E assim desenhou a sua estratégia, areia na engrenagem, entraves cirúrgicos, pressão constante. A ideia era simples e, na sua cabeça, brilhante, tornar a governação tão difícil que, a certa altura, o próprio executivo acabaria por vê-la como solução. A única solução, claro.
No seu cálculo político, bastaria mostrar “serviço”, exibir uma liderança de vitrina e aguardar pelo convite salvador para integrar o executivo como vereadora, por benevolência do presidente. Afinal, na sua lógica, todos os bloqueios impostos deixavam Joaquim Amaral refém de uma maioria acidental, tão instável quanto providencial para as suas ambições pessoais.
Chegou mesmo a passar-lhe pela cabeça e não poucas vezes, a possibilidade de ocupar o lugar de segunda vereadora, substituindo a vereadora eleita. Na sua impáfia narcísica, julgava controlar as suas tropas eleitas e acreditava que esse cenário lhe permitiria exercer um poder quase presidencial, impondo regras, marcando território, reescrevendo o guião. Seria, na sua visão, a consagração sem eleições.
Mas o brilho, quando é excessivo, também cega. E foi cega que cometeu o primeiro erro grave, votar contra a primeira alteração orçamental. Um gesto político, sem dúvida, mas também um problema sério de gestão para o município. Foi aí que Joaquim Amaral percebeu que governar quatro anos com uma oposição tão volátil quanto nitroglicerina seria um exercício de alto risco. A qualquer momento, tudo poderia explodir.
Ficou claro que o motor daquela estratégia não era o interesse do concelho, nem o seu desenvolvimento, mas objetivos pessoais bem mais opacos. Perante a perigosidade da situação, o presidente decidiu agir. O compromisso assumido, o de não aumentar os custos do executivo, terá pesado, e explica a demora. Mas não agir teria custos incomensuravelmente maiores para Nelas.
Hoje, a governabilidade será reposta. Sem sobressaltos, sem jogos de bastidores, com condições para cumprir as linhas programáticas essenciais de um projeto que ainda vai a meio, mas que tem rumo e destino. E agora, finalmente, poderemos avaliar a estratégia de Sofia à luz do dia, ou aproveita esta oportunidade real para demonstrar valor político efetivo, ou voltará a defraudar as expectativas que criou junto dos seus seguidores, partindo depois à procura de um desafio “maior”, algures onde a realidade seja mais tolerante com a retórica.
Quanto a Joaquim Amaral, não deverá sofrer de crises de consciência. A decisão tomada serve, acima de tudo, os interesses do concelho de Nelas e dos seus munícipes. Esse é o compromisso maior, assumido livremente há quatro anos, quando decidiu candidatar-se. Tudo o resto é ruído, mas o ruído passa, e o trabalho fica.

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