sexta-feira 06 2026

BILDERBERG, PODER E TRANSPARÊNCIA: O QUE DEVEMOS QUESTIONAR COMO CIDADÃOS

 


Ao longo de mais de meio século, dezenas de portugueses passaram pelas reuniões do Grupo de Bilderberg. Presidentes da República, primeiros-ministros, ministros, banqueiros, empresários e altos responsáveis internacionais marcaram presença neste fórum reservado, envolto em discrição e secretismo.

Entre os nomes mais conhecidos estão Francisco Pinto Balsemão, Durão Barroso, Jorge Sampaio, António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa, António Guterres, José Sócrates, António José Seguro, Teixeira dos Santos, Elisa Ferreira, Manuel Pinho, Manuela Ferreira Leite, Paulo Macedo, Pedro Santana Lopes, Faria de Oliveira, Maria Luísa Albuquerque, José Luís Arnaud, António Vitorino, Fernando Medina, Carlos Gomes da Silva, Ricardo Salgado, entre muitos outros.
Oficialmente, o Grupo de Bilderberg apresenta-se como um espaço informal de diálogo entre líderes europeus e norte-americanos, criado em 1954, com o objetivo de promover a cooperação internacional. As reuniões decorrem à porta fechada, sem cobertura mediática, sem atas públicas e sob regras estritas de confidencialidade.
É precisamente aqui que nasce a inquietação legítima dos cidadãos.
Num regime democrático, a transparência não é um detalhe. É um pilar fundamental.
Quando figuras com enorme influência política, económica e institucional se reúnem longe do escrutínio público, é natural que surjam dúvidas, desconfiança e interrogações. Não porque se parta automaticamente do princípio de que existe má-fé, mas porque o poder sem vigilância fragiliza a democracia.
A história recente mostra que vários participantes nestas reuniões acabaram por ocupar cargos decisivos nos anos seguintes. Alguns construíram carreiras sólidas e respeitadas. Outros envolveram-se em processos judiciais, escândalos financeiros ou decisões que marcaram negativamente o país.
Este facto, por si só, não prova qualquer relação direta. Mas reforça a necessidade de escrutínio.
Num Estado de Direito, os responsáveis públicos não devem apenas ser honestos. Devem parecer honestos. Devem agir de forma transparente. Devem prestar contas.
O problema não é o diálogo internacional. Esse é necessário.
O problema é o secretismo.
Quando se impede o acesso da comunicação social, quando não existem relatórios públicos, quando os cidadãos não sabem o que é discutido, cria-se um terreno fértil para especulação, suspeição e descrédito das instituições.
E isso enfraquece a democracia.
Não se trata de alimentar teorias da conspiração. Trata-se de defender princípios básicos: abertura, responsabilidade e respeito pelos cidadãos.
Portugal, como país democrático, deve exigir que os seus representantes mantenham padrões elevados de transparência, independentemente dos fóruns onde participem.
A confiança não se impõe. Constrói-se.
Constrói-se com verdade.
Com clareza.
Com prestação de contas.
Com respeito pelos eleitores.
Num tempo em que a desinformação cresce e a credibilidade da política está fragilizada, é ainda mais importante que os líderes não alimentem zonas cinzentas.
O poder deve servir a sociedade.
Não pode funcionar em circuitos fechados.
Essa é uma exigência democrática.
E um dever cívico.

João Manuel Magalhães Rodrigues Fernandes

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