sábado 14 2026

As escolhas de Zé Pedro Andrade

 


O Inverno da Alma

Há estações que não se anunciam pelo calendário, mas pela súbita rarefação do sentido. O inverno da alma chega sem neve visível, instala-se no interior como um silêncio prolongado, uma suspensão do afeto, um esfriamento da esperança que não grita, apenas se retira. Tudo continua aparentemente intacto, os dias seguem seu curso, as palavras ainda circulam, mas algo essencial recolhe-se para dentro, como um rio que congela sem perder a memória da corrente.
Nesse inverno, a alma aprende a linguagem da contenção. Já não transborda, já não promete, já não se oferece em excesso. Recolhe-se. Torna-se austera, quase ascética, como se soubesse que todo excesso, nesse tempo, seria desperdício. O frio interior não é ausência de vida, é economia de calor. É o instinto secreto de preservação do essencial quando o mundo se torna inóspito demais para a nudez do sentir.
O inverno da alma não é desespero, é lucidez em estado frio. Ele revela, com crueza, aquilo que o entusiasmo encobria. Amizades se rarefazem, ilusões perdem a cor, palavras grandiosas soam ocas. O que permanece é o que suporta o gelo. O resto, inevitavelmente, se parte. Há uma ética severa nesse processo, pois a alma, ao congelar, seleciona, e toda seleção é uma forma silenciosa de verdade.
Há também uma solidão própria desse tempo. Não a solidão ruidosa do abandono, mas a solidão grave da introspecção forçada. O sujeito torna-se vulto para si mesmo, caminha entre pensamentos como quem atravessa um campo coberto de geada, atento a cada passo, consciente de que qualquer descuido pode quebrar o pouco de calor ainda preservado. É nesse recolhimento que a alma se confronta consigo sem adornos, sem narrativas de consolo, sem máscaras morais.
Mas todo inverno carrega, em seu núcleo, uma promessa muda. A terra não está morta sob o gelo, está em latência. O inverno da alma prepara silenciosamente o terreno para uma forma mais sóbria de florescimento. Não o entusiasmo ingênuo da primavera imediata, mas uma maturidade que nasce da resistência. O que brota depois desse frio não é exuberante, é verdadeiro.
Assim, o inverno da alma não deve ser apressado nem combatido com falsas primaveras. Ele exige tempo, silêncio e fidelidade ao próprio recolhimento. Pois só quem suporta o frio interior sem fugir dele retorna ao mundo com raízes mais profundas, com menos ilusões e com uma forma de calor que já não depende das estações externas, mas da lucidez conquistada no coração do gelo.

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