É pena haver tanta ignorância sobre o passado. Pior ainda é quando essa ignorância é escolhida. Portugal foi, demasiadas vezes, um povo espezinhado: primeiro por uma monarquia absoluta, depois pela Inquisição, e mais tarde por uma ditadura que durou quarenta e oito longos anos e travou o progresso do país.
Conhecemos esses tempos. E é precisamente por os conhecermos que devemos dizer, sem rodeios: não queremos voltar lá.
Houve fome, analfabetismo, medo. Houve um país fechado sobre si próprio, empobrecido, vigiado, amordaçado. Houve uma guerra colonial absurda, travada para defender o que não era nosso, onde muitos jovens morreram e muitas famílias ficaram para sempre destruídas. Houve mais de um milhão de portugueses forçados a emigrar nas décadas de 50 e 60, rostos marcados pelo desespero, lágrimas silenciosas nas estações e nos portos, partidas sem regresso garantido.
Tudo isto teve um nome e um regime. Um ditador que não olhou a meios para manter o poder e um sistema que esmagou um povo inteiro.
Apesar de não ter vivido plenamente esses tempos, tenho a obrigação moral de os conhecer, através da história, dos registos, dos testemunhos. Porque a memória não é um luxo: é um dever cívico. E porque a história, quando é esquecida ou relativizada, tem um péssimo hábito de se repetir.
A capa da TIME de 22 de julho de 1946 é disso um exemplo notável. António de Oliveira Salazar surge retratado ao lado de uma maçã viçosa, mas carcomida por dentro. A legenda não deixa margem para dúvidas:
“Portugal’s Salazar: Dean of Dictators – How Bad is the Best?”
A metáfora escolhida pelo editor Percy Knauth e pelo correspondente em Lisboa, Piero Saporiti, expunha ao mundo aquilo que cá dentro muitos já sentiam: uma ditadura que parecia ordeira à superfície, mas que gerava uma terra melancólica de pessoas empobrecidas, confusas e assustadas.
E como é óbvio, será desnecessário dizer, que Salazar detestou a “gracinha”.
Ditadores detestam espelhos. Detestam imprensa livre. Detestam quem lhes retire a máscara.
Hoje, quando se ouvem vozes a relativizar, a branquear ou até a saudosizar esse passado, convém lembrar esta imagem. Convém lembrar as galochas na lama de ontem e as lágrimas nas malas de cartão. Convém perguntar, com toda a clareza: queremos mesmo voltar para trás?
A resposta só pode ser uma.
Não.
Nunca mais.
Porque a democracia pode ser imperfeita, ruidosa e exigente, mas é infinitamente mais digna do que qualquer maçã bonita por fora e podre por dentro.
João Manuel Magalhães Rodrigues Fernandes

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